OPINIÃO

A legitimidade do espólio para pleitear a recuperação judicial

Publicados

em

_OPINIÃO_

JB News

Por Paloma Orrigo Ribeiro Leite

A Lei nº 11.101/2005 (Lei de Recuperação e Falência – LREF), especialmente após a reforma promovida pela Lei nº 14.112/2020, passou a reconhecer expressamente a legitimidade do produtor rural pessoa física para requerer recuperação judicial. A exigência central, conforme o art. 48 da LREF, é o exercício regular da atividade por mais de dois anos, independentemente da natureza jurídica do devedor.

Essa mudança trouxe maior segurança jurídica aos produtores rurais, permitindo que, mesmo na ausência de registro prévio na Junta Comercial, fosse possível requerer a recuperação judicial, desde que comprovado o efetivo exercício da atividade rural. Tal entendimento foi consolidado pelo STJ no Tema Repetitivo 1.145, ao firmar que o registro tem natureza meramente declaratória, e não constitutiva.

Contudo, surge uma importante discussão no campo prático e teórico: pode o espólio de um produtor rural falecido pleitear recuperação judicial? A resposta, embora não expressa de forma detalhada na legislação, tem sido afirmativa na doutrina e jurisprudência, à luz dos princípios da preservação da empresa e da função social da atividade econômica.

Leia Também:  Temos que cuidar para o céu nao cai sobre nossas cabeças

Com o falecimento do empresário individual, a atividade empresarial pode ser mantida pelo espólio, representado pelo inventariante, conforme os artigos 980-A e 1.028 do Código Civil. O próprio art. 48, §1º da LREF, reconhece a possibilidade de continuação do procedimento recuperacional por sucessores, o que inclui o espólio. A jurisprudência, como a da 2ª Câmara Reservada de Direito Empresarial do TJSP, tem reafirmado essa possibilidade.

Apesar disso, na prática, surgem obstáculos burocráticos, como a dificuldade de registrar o espólio na Junta Comercial — muitas vezes inviável após o falecimento do titular, principalmente se o CPF estiver inativo. Em tais casos, o Judiciário pode e deve relativizar exigências formais, à luz do art. 47 da LREF, que privilegia a preservação da empresa viável e dos empregos.

Diante disso, o espólio pode e deve ser legitimado a ingressar com pedido de recuperação judicial, desde que comprove a continuidade da atividade rural por meio de documentos como notas fiscais, movimentações bancárias, Livro Caixa Digital do Produtor Rural (LCDPR) e declarações de imposto de renda do falecido.

Leia Também:  Impactos da Lei Kandir na Receita dos Estados e Municípios

Doutrinadores como Cássio Cavalli e Manoel Justino Bezerra Filho reforçam que o exercício da empresa não depende do registro, mas sim da prática profissional e organizada da atividade econômica. Assim, mesmo sem registro prévio, o espólio pode obter autorização judicial para regularização formal posterior, inclusive com inscrição retroativa na Junta Comercial.

Em suma, o formalismo não pode se sobrepor à realidade econômica. Se o objetivo da recuperação judicial é a preservação da atividade produtiva e a superação da crise financeira, é plenamente legítimo que o espólio de produtor rural, representado por inventariante, possa buscar esse instrumento legal, mesmo diante de lacunas ou entraves administrativos.

**Paloma Orrigo Ribeiro Leite é advogada*

COMENTE ABAIXO:

OPINIÃO

Parece que foi ontem

Publicados

em

Por

Por Antônio Joaquim

Parece que foi ontem. Dia 7 de abril de 2000. A lembrança da minha nomeação ao Tribunal de Contas de Mato Grosso ainda me vem com nitidez, como se o tempo não tivesse passado com a velocidade que, hoje percebo, ele realmente passou. São 26 anos de uma jornada que começou com expectativas, desafios e um profundo senso de responsabilidade pública. Ao revisitar essa trajetória, o sentimento que emerge é uma mistura de saudosismo e gratidão. Saudosismo pelas etapas vividas, pelas pessoas que caminharam ao meu lado e pelos momentos que ajudaram a construir quem sou hoje. E gratidão pela oportunidade de servir ao Estado de Mato Grosso e o Brasil em diferentes frentes ao longo da vida pública.

Antes mesmo de chegar ao Tribunal de Contas, tive a honra de atuar no Parlamento. Primeiro como um aguerrido deputado estadual, na trincheira da oposição, inclusive durante a Constituinte Estadual. Fui o “brizolinha pantaneiro”, em referência ao guerreiro Leonel Brizola, nosso líder no PDT. Tinha como marcas de atuação a determinação e a lealdade. Aprendi desde cedo que você pode ser firme, convicto, mas precisa sempre respeitar aliados e adversários. Depois, na Câmara dos Deputados, vivi momentos especiais como deputado federal, um dos mais votados de Mato Grosso. Foram experiências que moldaram minha compreensão sobre a importância das instituições e do compromisso com o bem comum.

No Governo Dante de Oliveira, pude contribuir com políticas públicas voltadas ao desenvolvimento do nosso Estado, em um período de grandes transformações estruturais em um Estado que estava quebrado, falido se o poder público pudesse falir. Fui secretário de Infraestrutura e Secretário de Estado de Educação, com letras maiúsculas. Disparado, a maior e mais inesquecível experiência, pelas marcas deixadas em minha trajetória pública. Vem desse período minha verdadeira paixão pela causa da educação pública. Eu acredito no poder transformador da educação. Transforma a si, transforma o próximo. Transforma e melhora a sociedade. Aproveito para homenagear todos aqueles que dedicam a vida ao ensino, a começar pela minha esposa Tânia, professora de carreira, minha educadora.

Mas foi no Tribunal de Contas que encontrei um espaço permanente de construção. Aqui, ao longo desses anos, fortaleceu-se em mim a convicção de que o controle externo vai muito além da fiscalização da gestão dos recursos públicos: ele é instrumento de cidadania. Por isso, sempre defendi o fortalecimento do controle social, como forma de aproximar a sociedade da gestão pública e, com a participação cidadã, retroalimentar o controle externo. O cidadão está sempre onipresente. Quando participa, fala, denuncia, cobra, transforma a vida social e impulsiona as instituições. Acredito que cidadãos bem-informados participam melhor, cobram melhor e ajudam a construir governos mais responsáveis. Impossível não lembrar de iniciativas como o projeto Consciência Cidadã, que nasceram dessa crença. Não fui pai desse projeto, mas fui padrinho, padrasto.

Leia Também:  Dias Toffoli: Cinco anos de audiência de custódia, mitos e verdades

Em nível nacional, tive a honra de contribuir para o desenvolvimento do sistema Tribunais de Contas. Na presidência da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil, trabalhei para mudar o foco da entidade, direcionando esforços para a melhoria concreta das nossas instituições de controle externo. A Atricon, quando assumi, era uma instituição corporativa, voltada praticamente para o interesse do associado. Como os Tribunais de Contas até hoje carecem de um conselho nacional que os organiza e fiscaliza, a exemplo do CNJ para o Poder Judiciário, e o CNMP, para o Ministério Público (órgãos de controle criados pela Emenda Constitucional 40), entendi que a Atricon tinha que organizar o sistema e lutar pela melhoria dos Tribunais de Contas brasileiros.

Parece um passado longínquo, mas em 2012, existiam tribunais de ponta e muitos abaixo da linha do aceitável. Minha gestão foi um marco transformador. Falo isso pelo sem-número de homenagens que recebo constantemente por ter sido esse líder naquele momento histórico. Foi um período de intensa dedicação, do qual resultaram iniciativas estruturantes, como o Marco de Medição de Desempenho dos Tribunais de Contas, o MMD-TC, iniciado com outro nome o QATC, programa que avaliava a qualidade e agilidade dos tribunais. Atualmente, todos os 33 Tribunais de Contas se submetem a essa avaliação. Com certeza, a evolução de todos passou por esse programa.

Para essa época da minha vida, homenageio a memória do saudoso conselheiro Salomão Ribas (TCE-SC). Ele que inventou minha candidatura, em um congresso da Atricon em Belém (PA), uma ideia que teve a adesão de outros dois ícones, Thiers Montebello (TCM/RJ) e Chico Neto (TCM-BA). Disse-me Salomão, secretamente: “eu não posso, mas você, novo e pouco desconhecido, pode nos provocar um terremoto necessário”. Como desafio pouco é bobagem, aceitei fui lançado aos leões. Não custa lembrar que, diferente do CNJ e CNMP, era e ainda é a mensalidade dos associados que banca o trabalho da Atricon de melhorar instituições públicas. Por isso, fui amado, odiado, mas felizmente hoje exaltado.

Leia Também:  Respeito ao próximo

Ver, anos depois, o avanço dessas e outras ações na Atricon e em todo o Sistema Tribunais de Contas, como o Programa Nacional de Transparência Pública – minha última contribuição nacional mesmo apenas como membro da entidade, proposta de 2021 – reforça a certeza de que cada esforço valeu e continua valendo a pena. Logicamente, são conquistas que não pertencem a uma pessoa, mas a todos que acreditam na força das instituições.

No Tribunal de Contas de Mato Grosso, para além da atividade obrigatória voltada à fiscalização e o julgamento de contas públicas, uma das causas que mais têm mobilizado minha atuação é a educação pública, agora presidindo a Comissão Permanente de Educação e Cultura.  Em especial, a atenção à primeira infância e a defesa da construção de creches como política essencial para o futuro, com ajuda do Gabinete de Articulação para a Efetividade da Política de Educação (GAEPE), uma iniciativa de governança colaborativa.

Cuidar das nossas crianças é, sem dúvida, o maior investimento que podemos fazer enquanto sociedade. Essa causa tem-me nutrido diariamente, em conjunto com a atuação como conselheiro ouvidor do TCE-MT. Nessa área, basta lembrar que em menos de cinco anos, como trabalho de mobilização, orientação, treinamento, conseguimos influenciar e fazer com que praticamente todos os órgãos públicos tenham criado sua Ouvidoria Pública.

Ao olhar para trás, é impossível não sentir saudade. Mas é uma saudade serena, acompanhada do orgulho pelas sementes plantadas e pelos resultados alcançados. O tempo passou — rápido, talvez até mais do que eu gostaria —, mas deixou marcas positivas, aprendizados e realizações. Se hoje parece que foi ontem, é porque cada momento vivido foi significativo. E é com esse mesmo espírito que sigo adiante, renovando o compromisso com o serviço público, com a ética e com a construção de um Estado cada vez melhor.

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

CUIABÁ

VÁRZEA GRANDE

POLÍTICA

POLICIAL

MAIS LIDAS DA SEMANA