OPINIÃO

Recuperação Judicial, a importância da Contabilidade no processo

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Por: Ederaldo Lima, Sergio Bocchese e Leonardo Bocchese

 

Com o advento da LEI 11.101/2005 que regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária, nos leva a pensar sobre os requisitos que devem ser obedecidos por aqueles que pretendem se beneficiar do instituto.

Também nos leva a pensar sobre princípios contábeis, pois pode ter ocorrido ferimento a algum deles. Os princípios da prudência e da continuidade são elementares, visto que os gestores devem ter cautela nos seus atos e é raro se ver uma organização que já nasce para ser fechada, exceptuando-se a sociedade de propósito específico – SPE.

Propomo-nos a discutir neste artigo como a contabilidade se relaciona com a recuperação judicial e quais aspectos técnicos são necessários para auxiliar o gestor na projeção de futuro e, também, para que possa gerir os negócios da melhor forma possível.

Há infindáveis questões legislativas atinentes ao enquadramento das organizações à referida lei. Temos, porém, uma análise que dá sustentação a todos esses argumentos judiciais, qual seja: a análise de dados da organização para deles extrair o real perfil de solvência e até das suas reais possibilidades de sustentação em caso de deferimento do pedido.

Não é uma análise simples e requer parâmetros técnicos avançados além de um acompanhamento junto à organização para entender os detalhes das informações contábeis, os bancos exigem balanços auditados para operações de empresas de grande porte.

Para organizações menores, porém, isto não é exigido. No caso de recuperação judicial a auditoria à parte é necessária para que esses dados sejam devidamente aferidos e se tenha a melhor posição do que fazer e verificar se a organização se sustenta ao longo do tempo. É imprescindível a análise adequada objetivando verificar se os dados contábeis são, de fato, condizentes com a realidade.

É a partir de uma análise inicial bem elaborada e baseada em elementos consistentes que se poderá ter êxito na proposição de um pedido de recuperação judicial.

Na medida em que os dados são apresentados e, principalmente, colocados em um padrão que demonstre de forma clara o que ocorre com a organização, melhor serão os resultados tanto para o deferimento quanto para o acompanhamento do plano, ou mesmo em eventual pedido de dilação de prazo da recuperação judicial, inicialmente tabulado em dois anos.  Sem dados consistentes, será difícil para se decidir quaisquer dos cenários.

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Nessa atividade da apresentação de dados, a utilização de ferramentas de BI (Business Intelligence) é altamente desejável porque propicia uma infinidade de formatos de apresentação dentro de um padrão que vai auxiliar sobremaneira quem os analisa.

Nesse sentido, cabe a quem elabora os dados um conhecimento para dar-lhes um formato que propicie a inserção no sistema BI sem o que não se terá sucesso na empreitada e passará a ser um volume de informações dispersas que não vão atender ao fim para que foram coletadas.

Essas aferições de dados, com certeza, vão além de um demonstrativo contábil que muitas vezes não reflete a real situação da organização, seja pelo trato contábil propriamente dito, ou por lançamentos que mascaram a real situação da organização usando-se expedientes não ortodoxos de apresentação dos dados ou mesmo por erro.

Os dados contábeis quando analisados com olhar sobre o passado, dizem da estrutura da empresa em um determinado período. Mas, para o analista experiente, certamente vão conter indicadores que apontam no sentido da continuidade da empresa para o crescimento ou da manutenção do “status quo”.

A ferramenta de análise das demonstrações contábeis se confunde um pouco com a perícia contábil, pois em sua maioria a ideia é de perícia, mas o que se faz e se objetiva é uma análise profunda das demonstrações buscando meios de economia financeira, contábil e tributária objetivando a plena recuperação dos negócios.

Ainda pode se dizer que há, neste sentido, espaço para outras ferramentas a serem usadas do ponto de vista contábil, aliás, muito utilizadas no mercado de capital, que se pode dar nome de Valuation, ou seja, a avaliação de empresas.

Por que falar disto dentro de uma recuperação judicial? Porque é através desta importantíssima ferramenta que a empresa em crise pode atrair investidores. Sempre há investidores dispostos a correr riscos, sendo esta estratégia elementar entre os grandes do mundo. Mas como tornar o negócio interessante para eles? E aí que entra a contabilidade mais uma vez, com seus indicadores, suas demonstrações e todo o seu arcabouço de relatórios.

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É nesse momento que entra o plano de recuperação judicial para fundamentar negociação com os credores aos quais também precisa ser demonstrada a viabilidade da empresa em recuperação, que dependerá dos dados contábeis atuais e projetados, para que se entenda que esse ou aquele modelo de comprometimento de pagamentos está ou não conforme a capacidade da empresa.

Um fluxo de caixa bem elaborado e com estrutura, pode dar um norte mais consistente e novos rumos na decisão de escalonamento das dívidas a serem pagas em uma assembleia de credores.

Há anos que os pensamentos e ideologias dentro da área contábil vêm mudando e se diversificando, os doutrinadores têm exigido cada vez mais conhecimento e praticidade dos envolvidos na área contábil. O mundo e as demandas são cada vez maiores por profissionais que possam enxergar oportunidades.  Não basta apenas ser técnico, é preciso o entendimento e visão de contexto para gerar oportunidades de recuperação.

A legislação prevê que ao decretar uma recuperação judicial, incumbe ao gestor que irá assumir a mesma, ter equipe que lhe possa dar suporte.

Enfim, podemos afirmar que a contabilidade dentro de um processo de recuperação judicial tem papel fundamental quando bem trabalhado e analisado, sendo peça imprescindível para a recuperação plena e a retomada de crescimento de determinada organização.

Uma empresa que se utiliza das técnicas contábeis e dos seus pilares tem muito mais possibilidade de retomada e crescimento do que uma que não as utiliza, é da união do jurídico, da contabilidade e do administrador judicial que se conseguirá melhores contornos para a continuidade empresarial.

 

*Ederaldo Lima – empresário contábil, mestre em ciências contábeis, representante dos contadores perante SEFAZ MT, membro da AMACIC/MT e IBGC.

*Sergio Bocchese, advogado, consultor financeiro.

*Organização: Leonardo Bocchese, advogado, executivo, mestrando em administração de empresas.

 

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Parece que foi ontem

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Por Antônio Joaquim

Parece que foi ontem. Dia 7 de abril de 2000. A lembrança da minha nomeação ao Tribunal de Contas de Mato Grosso ainda me vem com nitidez, como se o tempo não tivesse passado com a velocidade que, hoje percebo, ele realmente passou. São 26 anos de uma jornada que começou com expectativas, desafios e um profundo senso de responsabilidade pública. Ao revisitar essa trajetória, o sentimento que emerge é uma mistura de saudosismo e gratidão. Saudosismo pelas etapas vividas, pelas pessoas que caminharam ao meu lado e pelos momentos que ajudaram a construir quem sou hoje. E gratidão pela oportunidade de servir ao Estado de Mato Grosso e o Brasil em diferentes frentes ao longo da vida pública.

Antes mesmo de chegar ao Tribunal de Contas, tive a honra de atuar no Parlamento. Primeiro como um aguerrido deputado estadual, na trincheira da oposição, inclusive durante a Constituinte Estadual. Fui o “brizolinha pantaneiro”, em referência ao guerreiro Leonel Brizola, nosso líder no PDT. Tinha como marcas de atuação a determinação e a lealdade. Aprendi desde cedo que você pode ser firme, convicto, mas precisa sempre respeitar aliados e adversários. Depois, na Câmara dos Deputados, vivi momentos especiais como deputado federal, um dos mais votados de Mato Grosso. Foram experiências que moldaram minha compreensão sobre a importância das instituições e do compromisso com o bem comum.

No Governo Dante de Oliveira, pude contribuir com políticas públicas voltadas ao desenvolvimento do nosso Estado, em um período de grandes transformações estruturais em um Estado que estava quebrado, falido se o poder público pudesse falir. Fui secretário de Infraestrutura e Secretário de Estado de Educação, com letras maiúsculas. Disparado, a maior e mais inesquecível experiência, pelas marcas deixadas em minha trajetória pública. Vem desse período minha verdadeira paixão pela causa da educação pública. Eu acredito no poder transformador da educação. Transforma a si, transforma o próximo. Transforma e melhora a sociedade. Aproveito para homenagear todos aqueles que dedicam a vida ao ensino, a começar pela minha esposa Tânia, professora de carreira, minha educadora.

Mas foi no Tribunal de Contas que encontrei um espaço permanente de construção. Aqui, ao longo desses anos, fortaleceu-se em mim a convicção de que o controle externo vai muito além da fiscalização da gestão dos recursos públicos: ele é instrumento de cidadania. Por isso, sempre defendi o fortalecimento do controle social, como forma de aproximar a sociedade da gestão pública e, com a participação cidadã, retroalimentar o controle externo. O cidadão está sempre onipresente. Quando participa, fala, denuncia, cobra, transforma a vida social e impulsiona as instituições. Acredito que cidadãos bem-informados participam melhor, cobram melhor e ajudam a construir governos mais responsáveis. Impossível não lembrar de iniciativas como o projeto Consciência Cidadã, que nasceram dessa crença. Não fui pai desse projeto, mas fui padrinho, padrasto.

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Em nível nacional, tive a honra de contribuir para o desenvolvimento do sistema Tribunais de Contas. Na presidência da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil, trabalhei para mudar o foco da entidade, direcionando esforços para a melhoria concreta das nossas instituições de controle externo. A Atricon, quando assumi, era uma instituição corporativa, voltada praticamente para o interesse do associado. Como os Tribunais de Contas até hoje carecem de um conselho nacional que os organiza e fiscaliza, a exemplo do CNJ para o Poder Judiciário, e o CNMP, para o Ministério Público (órgãos de controle criados pela Emenda Constitucional 40), entendi que a Atricon tinha que organizar o sistema e lutar pela melhoria dos Tribunais de Contas brasileiros.

Parece um passado longínquo, mas em 2012, existiam tribunais de ponta e muitos abaixo da linha do aceitável. Minha gestão foi um marco transformador. Falo isso pelo sem-número de homenagens que recebo constantemente por ter sido esse líder naquele momento histórico. Foi um período de intensa dedicação, do qual resultaram iniciativas estruturantes, como o Marco de Medição de Desempenho dos Tribunais de Contas, o MMD-TC, iniciado com outro nome o QATC, programa que avaliava a qualidade e agilidade dos tribunais. Atualmente, todos os 33 Tribunais de Contas se submetem a essa avaliação. Com certeza, a evolução de todos passou por esse programa.

Para essa época da minha vida, homenageio a memória do saudoso conselheiro Salomão Ribas (TCE-SC). Ele que inventou minha candidatura, em um congresso da Atricon em Belém (PA), uma ideia que teve a adesão de outros dois ícones, Thiers Montebello (TCM/RJ) e Chico Neto (TCM-BA). Disse-me Salomão, secretamente: “eu não posso, mas você, novo e pouco desconhecido, pode nos provocar um terremoto necessário”. Como desafio pouco é bobagem, aceitei fui lançado aos leões. Não custa lembrar que, diferente do CNJ e CNMP, era e ainda é a mensalidade dos associados que banca o trabalho da Atricon de melhorar instituições públicas. Por isso, fui amado, odiado, mas felizmente hoje exaltado.

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Ver, anos depois, o avanço dessas e outras ações na Atricon e em todo o Sistema Tribunais de Contas, como o Programa Nacional de Transparência Pública – minha última contribuição nacional mesmo apenas como membro da entidade, proposta de 2021 – reforça a certeza de que cada esforço valeu e continua valendo a pena. Logicamente, são conquistas que não pertencem a uma pessoa, mas a todos que acreditam na força das instituições.

No Tribunal de Contas de Mato Grosso, para além da atividade obrigatória voltada à fiscalização e o julgamento de contas públicas, uma das causas que mais têm mobilizado minha atuação é a educação pública, agora presidindo a Comissão Permanente de Educação e Cultura.  Em especial, a atenção à primeira infância e a defesa da construção de creches como política essencial para o futuro, com ajuda do Gabinete de Articulação para a Efetividade da Política de Educação (GAEPE), uma iniciativa de governança colaborativa.

Cuidar das nossas crianças é, sem dúvida, o maior investimento que podemos fazer enquanto sociedade. Essa causa tem-me nutrido diariamente, em conjunto com a atuação como conselheiro ouvidor do TCE-MT. Nessa área, basta lembrar que em menos de cinco anos, como trabalho de mobilização, orientação, treinamento, conseguimos influenciar e fazer com que praticamente todos os órgãos públicos tenham criado sua Ouvidoria Pública.

Ao olhar para trás, é impossível não sentir saudade. Mas é uma saudade serena, acompanhada do orgulho pelas sementes plantadas e pelos resultados alcançados. O tempo passou — rápido, talvez até mais do que eu gostaria —, mas deixou marcas positivas, aprendizados e realizações. Se hoje parece que foi ontem, é porque cada momento vivido foi significativo. E é com esse mesmo espírito que sigo adiante, renovando o compromisso com o serviço público, com a ética e com a construção de um Estado cada vez melhor.

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