OPINIÃO

A informalidade e a crise  

por Caiubi Kuhn

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A informalidade é um dos grandes problemas estruturais do país. Neste texto vou abordar sobre os efeitos deste problema em crises como a pandemia que vivemos, ou mesmo para outras questões relevantes como previdência social e proteção social dos trabalhadores. A falta de empregos formais deixa milhões de brasileiros em situações precárias, sem ter segurança sobre o almoço do dia de amanhã e sobre o futuro próximo. A busca pela ampliação do trabalho formal deve ser uma prioridade de qualquer governo que valorize o seu povo.   

Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no dia 31 de março, no Brasil existem cerca de 14,3 milhões de desempregados, o que significa 14,2% de taxa de desocupação. No Brasil, 86 milhões estão empregadas, porém deste total, 39,7% exercem atividades informais. Além disso, 5,9 milhões de pessoas estão no grupo dos desalentados, nome dado àquelas pessoas que gostaria de conseguir uma vaga, mas que não procuram mais emprego, ou seja, as pessoas que desistiram de tentar conseguir uma vaga de trabalho.  Os dados não são animadores, em muitos estados do país o número de trabalhadores informais ultrapassa 50% da população ativa.  

E o que isso representa?  

Em muitos empregos informais, as pessoas não possuem o mínimo de proteção social. Se sofrerem um acidente de trabalho ficam sem comida em casa, não possuem acesso a seguro-desemprego, em muitos casos precisam manter o trabalho diário para pagar as contas básicas com moradia e alimentação, ou seja, na prática essas pessoas são duramente afetadas até mesmo se ficarem doentes.  

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A pandemia trouxe inúmeras limitações de circulação, sobrecarregou o sistema de saúde e as medidas de isolamento adotadas restringiram atividades econômicas. Essas medidas afetaram com uma força muito maior os trabalhadores informais que, se ficarem doentes ou sem trabalhar por uma semana, ficam sem comida em casa. A implementação do auxílio emergencial para muitas destas pessoas foi uma salvação e, em muitos casos, pode ter representado até mesmo um aumento da renda mensal, já que segundo dados da PNAD, de 2018, 50% da população do Brasil vivia na época com renda per capita de até 413 reais. Porém, com o fim do auxílio no final do ano de 2020, a luta pela sobrevivência bateu na porta dos trabalhadores informais novamente e, talvez esse tenha sido um dos grandes motivos pelo crescimento do número de novos infectados pelo Coronavírus entre janeiro e abril.  

Talvez se o auxílio tivesse sido mantido, a circulação de pessoas que vão às ruas na busca pela sobrevivência não seriam tantas e o vírus teria circulado menos e muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Além disso, o novo valor do auxílio, somado à inflação acumulada, pode representar a necessidade da continuação de atividades diárias, para pessoas que, em muitos casos, não possuem recursos para comprar equipamentos de proteção para evitar o contágio com o novo Coronavírus. Os números mostram que é evidente que a alta taxa de informalidade levou a uma baixa proteção da população neste momento de crise econômica e sanitária.  

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Para além dos efeitos existentes durante a pandemia, a formalização deve ser um objetivo constante de qualquer governo no Brasil. O Brasil vive um momento com elevada taxa de pessoas em idade produtiva e, mesmo assim, possui problemas com a previdência social. Em outros países, os problemas entre custo e arrecadação do sistema de previdência ocorrem somente quando a população do país começa envelhecer, ou seja, quando ocorre uma ampliação proporcional do número de aposentados em relação a população ativa. Porém, isso ainda não ocorreu no Brasil. Os problemas de arrecadação da previdência estão de certa forma relacionados com elevado número de trabalhadores informais.  

Precisamos de políticas de formalização do trabalho no Brasil. O país precisa prezar pela proteção social dos seus cidadãos. Melhorar o índice de formalização trará inúmeros pontos positivos para os trabalhadores, empregadores e para o governo. A pergunta que fica é: Por que será que isso não parece ser uma prioridade para o governo?  

 

Caiubi KuhnProfessor na Faculdade de Engenharia (UFMT), geólogo, especialista em Gestão Pública (UFMT), mestre em Geociências (UFMT) 

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Parece que foi ontem

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Por Antônio Joaquim

Parece que foi ontem. Dia 7 de abril de 2000. A lembrança da minha nomeação ao Tribunal de Contas de Mato Grosso ainda me vem com nitidez, como se o tempo não tivesse passado com a velocidade que, hoje percebo, ele realmente passou. São 26 anos de uma jornada que começou com expectativas, desafios e um profundo senso de responsabilidade pública. Ao revisitar essa trajetória, o sentimento que emerge é uma mistura de saudosismo e gratidão. Saudosismo pelas etapas vividas, pelas pessoas que caminharam ao meu lado e pelos momentos que ajudaram a construir quem sou hoje. E gratidão pela oportunidade de servir ao Estado de Mato Grosso e o Brasil em diferentes frentes ao longo da vida pública.

Antes mesmo de chegar ao Tribunal de Contas, tive a honra de atuar no Parlamento. Primeiro como um aguerrido deputado estadual, na trincheira da oposição, inclusive durante a Constituinte Estadual. Fui o “brizolinha pantaneiro”, em referência ao guerreiro Leonel Brizola, nosso líder no PDT. Tinha como marcas de atuação a determinação e a lealdade. Aprendi desde cedo que você pode ser firme, convicto, mas precisa sempre respeitar aliados e adversários. Depois, na Câmara dos Deputados, vivi momentos especiais como deputado federal, um dos mais votados de Mato Grosso. Foram experiências que moldaram minha compreensão sobre a importância das instituições e do compromisso com o bem comum.

No Governo Dante de Oliveira, pude contribuir com políticas públicas voltadas ao desenvolvimento do nosso Estado, em um período de grandes transformações estruturais em um Estado que estava quebrado, falido se o poder público pudesse falir. Fui secretário de Infraestrutura e Secretário de Estado de Educação, com letras maiúsculas. Disparado, a maior e mais inesquecível experiência, pelas marcas deixadas em minha trajetória pública. Vem desse período minha verdadeira paixão pela causa da educação pública. Eu acredito no poder transformador da educação. Transforma a si, transforma o próximo. Transforma e melhora a sociedade. Aproveito para homenagear todos aqueles que dedicam a vida ao ensino, a começar pela minha esposa Tânia, professora de carreira, minha educadora.

Mas foi no Tribunal de Contas que encontrei um espaço permanente de construção. Aqui, ao longo desses anos, fortaleceu-se em mim a convicção de que o controle externo vai muito além da fiscalização da gestão dos recursos públicos: ele é instrumento de cidadania. Por isso, sempre defendi o fortalecimento do controle social, como forma de aproximar a sociedade da gestão pública e, com a participação cidadã, retroalimentar o controle externo. O cidadão está sempre onipresente. Quando participa, fala, denuncia, cobra, transforma a vida social e impulsiona as instituições. Acredito que cidadãos bem-informados participam melhor, cobram melhor e ajudam a construir governos mais responsáveis. Impossível não lembrar de iniciativas como o projeto Consciência Cidadã, que nasceram dessa crença. Não fui pai desse projeto, mas fui padrinho, padrasto.

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Em nível nacional, tive a honra de contribuir para o desenvolvimento do sistema Tribunais de Contas. Na presidência da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil, trabalhei para mudar o foco da entidade, direcionando esforços para a melhoria concreta das nossas instituições de controle externo. A Atricon, quando assumi, era uma instituição corporativa, voltada praticamente para o interesse do associado. Como os Tribunais de Contas até hoje carecem de um conselho nacional que os organiza e fiscaliza, a exemplo do CNJ para o Poder Judiciário, e o CNMP, para o Ministério Público (órgãos de controle criados pela Emenda Constitucional 40), entendi que a Atricon tinha que organizar o sistema e lutar pela melhoria dos Tribunais de Contas brasileiros.

Parece um passado longínquo, mas em 2012, existiam tribunais de ponta e muitos abaixo da linha do aceitável. Minha gestão foi um marco transformador. Falo isso pelo sem-número de homenagens que recebo constantemente por ter sido esse líder naquele momento histórico. Foi um período de intensa dedicação, do qual resultaram iniciativas estruturantes, como o Marco de Medição de Desempenho dos Tribunais de Contas, o MMD-TC, iniciado com outro nome o QATC, programa que avaliava a qualidade e agilidade dos tribunais. Atualmente, todos os 33 Tribunais de Contas se submetem a essa avaliação. Com certeza, a evolução de todos passou por esse programa.

Para essa época da minha vida, homenageio a memória do saudoso conselheiro Salomão Ribas (TCE-SC). Ele que inventou minha candidatura, em um congresso da Atricon em Belém (PA), uma ideia que teve a adesão de outros dois ícones, Thiers Montebello (TCM/RJ) e Chico Neto (TCM-BA). Disse-me Salomão, secretamente: “eu não posso, mas você, novo e pouco desconhecido, pode nos provocar um terremoto necessário”. Como desafio pouco é bobagem, aceitei fui lançado aos leões. Não custa lembrar que, diferente do CNJ e CNMP, era e ainda é a mensalidade dos associados que banca o trabalho da Atricon de melhorar instituições públicas. Por isso, fui amado, odiado, mas felizmente hoje exaltado.

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Ver, anos depois, o avanço dessas e outras ações na Atricon e em todo o Sistema Tribunais de Contas, como o Programa Nacional de Transparência Pública – minha última contribuição nacional mesmo apenas como membro da entidade, proposta de 2021 – reforça a certeza de que cada esforço valeu e continua valendo a pena. Logicamente, são conquistas que não pertencem a uma pessoa, mas a todos que acreditam na força das instituições.

No Tribunal de Contas de Mato Grosso, para além da atividade obrigatória voltada à fiscalização e o julgamento de contas públicas, uma das causas que mais têm mobilizado minha atuação é a educação pública, agora presidindo a Comissão Permanente de Educação e Cultura.  Em especial, a atenção à primeira infância e a defesa da construção de creches como política essencial para o futuro, com ajuda do Gabinete de Articulação para a Efetividade da Política de Educação (GAEPE), uma iniciativa de governança colaborativa.

Cuidar das nossas crianças é, sem dúvida, o maior investimento que podemos fazer enquanto sociedade. Essa causa tem-me nutrido diariamente, em conjunto com a atuação como conselheiro ouvidor do TCE-MT. Nessa área, basta lembrar que em menos de cinco anos, como trabalho de mobilização, orientação, treinamento, conseguimos influenciar e fazer com que praticamente todos os órgãos públicos tenham criado sua Ouvidoria Pública.

Ao olhar para trás, é impossível não sentir saudade. Mas é uma saudade serena, acompanhada do orgulho pelas sementes plantadas e pelos resultados alcançados. O tempo passou — rápido, talvez até mais do que eu gostaria —, mas deixou marcas positivas, aprendizados e realizações. Se hoje parece que foi ontem, é porque cada momento vivido foi significativo. E é com esse mesmo espírito que sigo adiante, renovando o compromisso com o serviço público, com a ética e com a construção de um Estado cada vez melhor.

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