AGRONEGÓCIOS
Brasil busca novos mercados diante de tarifaço sobre o café
O Brasil, maior produtor mundial de café, enfrenta um cenário de pressão no comércio internacional após a imposição de uma tarifa de 50% sobre o café brasileiro pelos Estados Unidos, em vigor desde 6 de agosto. O país norte-americano é o principal destino do grão, respondendo por mais de 30% das importações de café verde brasileiro. A medida já provoca mudanças na dinâmica do setor, ao mesmo tempo em que sustenta uma alta expressiva nos preços internacionais.
Na Bolsa de Nova York (ICE), o contrato para dezembro saltou de R$ 1.567,00 (US$ 287,55) por saca em 31 de julho para R$ 2.059,00 (US$ 378,30) em 22 de agosto, o que representa valorização de 31,6% em menos de um mês. Apesar do aumento, exportadores brasileiros vêm redirecionando parte dos embarques para Europa e Ásia, em busca de reduzir a dependência do mercado americano.
A pressão tarifária se soma a perdas na safra brasileira. Somente no Cerrado Mineiro, estima-se redução de 412 mil sacas de arábica por conta das geadas de agosto. Com menor oferta e incertezas comerciais, o mercado opera em forte volatilidade e sem clareza sobre onde estará o pico de preços.
Enquanto isso, os consumidores americanos também sentem os efeitos. Além da sobretaxa de 50% para o Brasil, Washington elevou tarifas em 20% para o Vietnã e 10% para a Colômbia, principais concorrentes. O encarecimento recai diretamente sobre o varejo nos EUA, o que amplia a pressão política contra as medidas, mas sem sinal claro de reversão no curto prazo.
No comércio exterior, os efeitos são contrastantes. Nas três primeiras semanas de agosto, os embarques de café verde cresceram 14% em relação ao mesmo período do ano passado. Em julho, no entanto, as exportações haviam recuado 27,6%, para 2,73 milhões de sacas. Apesar da queda em volume, a receita foi de R$ 5,61 bilhões (US$ 1,03 bilhão), aumento de 10,4%, sustentado pela alta dos preços.
Economistas apontam que a diversificação de mercados é fundamental para mitigar riscos. A dependência histórica dos EUA, embora relevante, não pode ser exclusiva diante das barreiras impostas. A busca por novos compradores e contratos de longo prazo na Europa, na Ásia e em países emergentes se tornou prioridade estratégica.
No campo, a incerteza afeta diretamente os produtores, que precisam de preços estáveis para manter a viabilidade da produção. Com parte dos contratos congelados e negociações adiadas, cresce a necessidade de planejamento comercial e apoio institucional para preservar a competitividade da cadeia cafeeira brasileira.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIOS
Investigação expõe disputa com China e acende alerta no mercado brasileiro
A abertura de investigação pelo governo brasileiro sobre possível dumping nas importações de proteína de soja chinesa ocorre em paralelo a um cenário mais amplo de tensão comercial envolvendo o principal produto do agronegócio nacional: a soja em grão. Embora o foco formal da apuração seja um derivado específico, o movimento expõe o grau de sensibilidade da relação comercial entre Brasil e China, destino de mais de 70% das exportações brasileiras do complexo soja.
O Brasil embarca anualmente entre 95 milhões e 105 milhões de toneladas de soja em grão, dependendo da safra, consolidando-se como o maior exportador global. Desse total, a China absorve a maior parte, com compras que frequentemente superam 70 milhões de toneladas por ano. Trata-se de uma relação de alta dependência: para o Brasil, a China é o principal comprador; para os chineses, o Brasil é o principal fornecedor.
O problema é que esse fluxo não é livre de mecanismos de controle. A China opera com um sistema indireto de regulação das importações, baseado principalmente em licenças, controle de esmagamento e gestão de estoques estratégicos. Na prática, isso funciona como uma espécie de “cota informal”. O governo chinês pode reduzir ou ampliar o ritmo de compras ao liberar menos ou mais permissões para importadores e indústrias locais.
Esse mecanismo ficou evidente nos últimos ciclos. Em momentos de margens apertadas na indústria chinesa de esmagamento, quando o farelo e o óleo não compensam o custo da soja importada, o país desacelera as compras. O resultado é imediato: pressão sobre os prêmios nos portos brasileiros e maior volatilidade de preços.
Além disso, há um fator estrutural. A China vem buscando diversificar fornecedores e reduzir riscos geopolíticos. Mesmo com a forte dependência do Brasil, o país mantém canais ativos com os Estados Unidos e outros exportadores, utilizando o volume de compras como ferramenta de negociação comercial.
No caso específico da proteína de soja, produto industrializado voltado principalmente à alimentação humana, o impacto direto sobre o produtor rural tende a ser limitado. Ainda assim, a investigação conduzida pela Secretaria de Comércio Exterior, ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, sinaliza um endurecimento na política comercial brasileira em relação à China, ainda que pontual.
O processo analisa indícios de venda a preços abaixo do custo de produção, prática conhecida como dumping, no período entre julho de 2024 e junho de 2025. Caso seja confirmada, o Brasil pode aplicar tarifas adicionais por até cinco anos.
O ponto de atenção é que, embora tecnicamente restrita, qualquer medida nessa direção exige calibragem. A China é, de longe, o maior cliente da soja brasileira e um dos principais destinos de produtos do agronegócio como carne bovina e de frango. Movimentos comerciais, mesmo que setoriais, são acompanhados de perto pelo mercado.
Para o produtor, o cenário reforça um ponto central: o preço da soja no Brasil não depende apenas de oferta e demanda internas, mas de decisões estratégicas tomadas em Pequim. Ritmo de compras, gestão de estoques e margens da indústria chinesa seguem sendo os principais determinantes de curto prazo.
Na prática, a investigação atual não muda o fluxo da soja em grão, mas escancara a dependência brasileira de um único mercado e o grau de exposição a decisões comerciais externas.
Fonte: Pensar Agro
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