OPINIÃO
A eficiência verde e amarela
Por Luciano Vacari
A pecuária brasileira já não é mais a mesma e isso é muito bom. Bom para quem produz, para quem consome e bom para quem investe. Nos últimos anos, a produção da proteína vermelha evoluiu com a adoção de tecnologias e protocolos que viabilizaram dobrar o desempenho sem precisar aumentar o uso de recursos naturais como a área de pastagem. É mais renda no campo, empregos na cidade e comida no prato.
A modernização da pecuária de corte começa no século XIX, quando passamos a importar pastagem e animais geneticamente mais adaptados ao nosso clima. E esse processo não parou. O pasto, por exemplo, além de variedades mais adaptadas, também passou a ser manejado, recuperado e reformado. A vida útil da área aumenta substancialmente ao mesmo tempo em que os animais têm acesso a uma fonte nutricional mais rica. Resultado: queda na abertura de novas áreas e animais terminados mais rapidamente.
Ainda falando em nutrição, a suplementação mineral, como o tradicional sal, até a complementação com grãos contribuem para melhorar o desempenho do rebanho e acelerar o processo de engorda. Os investimentos utilizados para adquirir os suplementos são recompensados com a economia de tempo. O Brasil é campeão na produção de gado a pasto, mas nem por isso abre mão das ferramentas para elevar a produtividade.
Mas o aumento de 89% na produção de carne vermelha não decorre somente da suplementação, é um conjunto de fatores que vem proporcionando a evolução dentro da porteira. A seleção genética, a utilização de técnicas como inseminação artificial e a sincronização do cruzamento industrial garantem a padronização da produção, uma demanda antiga do mercado. Sem falar, novamente, do melhor desenvolvimento dos animais.
Para se ter uma ideia, há dez anos, metade dos animais abatidos tinham mais do que 36 meses, atualmente essa participação caiu para 30%. Mais um resultado dos investimentos feitos dentro porteira e que chega para todos, mesmo para quem não come carne. Sabe como? Com redução da emissão de gases de efeito estufa pela pecuária e até mesmo a neutralização das emissões dentro da propriedade. O rebanho bovino está emitindo 10% a menos de gases de efeito estufa por animal, mesmo com o aumento produtivo.
Atualmente, os dois maiores desafios mundiais são segurança alimentar e mudança do clima e eles andam juntos. O setor agropecuário tem um papel chave em relação aos dois e todos os elos da cadeia têm assumido seu compromisso. A agroindústria, por exemplo, tem sido um grande acelerador ao apresentar suas metas e compromissos. O Estado, por meio de políticas públicas de incentivo à intensificação sustentável, como o Plano ABC e ABC+, incentiva. Mas, o produtor rural é o protagonista. É ele quem toma a decisão de adotar ou não as tecnologias.
Dar luz aos problemas é essencial para provocar mudanças, mas reconhecer os avanços é indispensável. E isso tem que vir na comunicação, na certificação e no pagamento pelos investimentos feitos. Afinal, estamos mais eficientes, produtivos e sustentáveis, como o mundo precisa.
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e diretor da Neo Agro Consultoria.
OPINIÃO
Parece que foi ontem
Por Antônio Joaquim
Parece que foi ontem. Dia 7 de abril de 2000. A lembrança da minha nomeação ao Tribunal de Contas de Mato Grosso ainda me vem com nitidez, como se o tempo não tivesse passado com a velocidade que, hoje percebo, ele realmente passou. São 26 anos de uma jornada que começou com expectativas, desafios e um profundo senso de responsabilidade pública. Ao revisitar essa trajetória, o sentimento que emerge é uma mistura de saudosismo e gratidão. Saudosismo pelas etapas vividas, pelas pessoas que caminharam ao meu lado e pelos momentos que ajudaram a construir quem sou hoje. E gratidão pela oportunidade de servir ao Estado de Mato Grosso e o Brasil em diferentes frentes ao longo da vida pública.
Antes mesmo de chegar ao Tribunal de Contas, tive a honra de atuar no Parlamento. Primeiro como um aguerrido deputado estadual, na trincheira da oposição, inclusive durante a Constituinte Estadual. Fui o “brizolinha pantaneiro”, em referência ao guerreiro Leonel Brizola, nosso líder no PDT. Tinha como marcas de atuação a determinação e a lealdade. Aprendi desde cedo que você pode ser firme, convicto, mas precisa sempre respeitar aliados e adversários. Depois, na Câmara dos Deputados, vivi momentos especiais como deputado federal, um dos mais votados de Mato Grosso. Foram experiências que moldaram minha compreensão sobre a importância das instituições e do compromisso com o bem comum.
No Governo Dante de Oliveira, pude contribuir com políticas públicas voltadas ao desenvolvimento do nosso Estado, em um período de grandes transformações estruturais em um Estado que estava quebrado, falido se o poder público pudesse falir. Fui secretário de Infraestrutura e Secretário de Estado de Educação, com letras maiúsculas. Disparado, a maior e mais inesquecível experiência, pelas marcas deixadas em minha trajetória pública. Vem desse período minha verdadeira paixão pela causa da educação pública. Eu acredito no poder transformador da educação. Transforma a si, transforma o próximo. Transforma e melhora a sociedade. Aproveito para homenagear todos aqueles que dedicam a vida ao ensino, a começar pela minha esposa Tânia, professora de carreira, minha educadora.
Mas foi no Tribunal de Contas que encontrei um espaço permanente de construção. Aqui, ao longo desses anos, fortaleceu-se em mim a convicção de que o controle externo vai muito além da fiscalização da gestão dos recursos públicos: ele é instrumento de cidadania. Por isso, sempre defendi o fortalecimento do controle social, como forma de aproximar a sociedade da gestão pública e, com a participação cidadã, retroalimentar o controle externo. O cidadão está sempre onipresente. Quando participa, fala, denuncia, cobra, transforma a vida social e impulsiona as instituições. Acredito que cidadãos bem-informados participam melhor, cobram melhor e ajudam a construir governos mais responsáveis. Impossível não lembrar de iniciativas como o projeto Consciência Cidadã, que nasceram dessa crença. Não fui pai desse projeto, mas fui padrinho, padrasto.
Em nível nacional, tive a honra de contribuir para o desenvolvimento do sistema Tribunais de Contas. Na presidência da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil, trabalhei para mudar o foco da entidade, direcionando esforços para a melhoria concreta das nossas instituições de controle externo. A Atricon, quando assumi, era uma instituição corporativa, voltada praticamente para o interesse do associado. Como os Tribunais de Contas até hoje carecem de um conselho nacional que os organiza e fiscaliza, a exemplo do CNJ para o Poder Judiciário, e o CNMP, para o Ministério Público (órgãos de controle criados pela Emenda Constitucional 40), entendi que a Atricon tinha que organizar o sistema e lutar pela melhoria dos Tribunais de Contas brasileiros.
Parece um passado longínquo, mas em 2012, existiam tribunais de ponta e muitos abaixo da linha do aceitável. Minha gestão foi um marco transformador. Falo isso pelo sem-número de homenagens que recebo constantemente por ter sido esse líder naquele momento histórico. Foi um período de intensa dedicação, do qual resultaram iniciativas estruturantes, como o Marco de Medição de Desempenho dos Tribunais de Contas, o MMD-TC, iniciado com outro nome o QATC, programa que avaliava a qualidade e agilidade dos tribunais. Atualmente, todos os 33 Tribunais de Contas se submetem a essa avaliação. Com certeza, a evolução de todos passou por esse programa.
Para essa época da minha vida, homenageio a memória do saudoso conselheiro Salomão Ribas (TCE-SC). Ele que inventou minha candidatura, em um congresso da Atricon em Belém (PA), uma ideia que teve a adesão de outros dois ícones, Thiers Montebello (TCM/RJ) e Chico Neto (TCM-BA). Disse-me Salomão, secretamente: “eu não posso, mas você, novo e pouco desconhecido, pode nos provocar um terremoto necessário”. Como desafio pouco é bobagem, aceitei fui lançado aos leões. Não custa lembrar que, diferente do CNJ e CNMP, era e ainda é a mensalidade dos associados que banca o trabalho da Atricon de melhorar instituições públicas. Por isso, fui amado, odiado, mas felizmente hoje exaltado.
Ver, anos depois, o avanço dessas e outras ações na Atricon e em todo o Sistema Tribunais de Contas, como o Programa Nacional de Transparência Pública – minha última contribuição nacional mesmo apenas como membro da entidade, proposta de 2021 – reforça a certeza de que cada esforço valeu e continua valendo a pena. Logicamente, são conquistas que não pertencem a uma pessoa, mas a todos que acreditam na força das instituições.
No Tribunal de Contas de Mato Grosso, para além da atividade obrigatória voltada à fiscalização e o julgamento de contas públicas, uma das causas que mais têm mobilizado minha atuação é a educação pública, agora presidindo a Comissão Permanente de Educação e Cultura. Em especial, a atenção à primeira infância e a defesa da construção de creches como política essencial para o futuro, com ajuda do Gabinete de Articulação para a Efetividade da Política de Educação (GAEPE), uma iniciativa de governança colaborativa.
Cuidar das nossas crianças é, sem dúvida, o maior investimento que podemos fazer enquanto sociedade. Essa causa tem-me nutrido diariamente, em conjunto com a atuação como conselheiro ouvidor do TCE-MT. Nessa área, basta lembrar que em menos de cinco anos, como trabalho de mobilização, orientação, treinamento, conseguimos influenciar e fazer com que praticamente todos os órgãos públicos tenham criado sua Ouvidoria Pública.
Ao olhar para trás, é impossível não sentir saudade. Mas é uma saudade serena, acompanhada do orgulho pelas sementes plantadas e pelos resultados alcançados. O tempo passou — rápido, talvez até mais do que eu gostaria —, mas deixou marcas positivas, aprendizados e realizações. Se hoje parece que foi ontem, é porque cada momento vivido foi significativo. E é com esse mesmo espírito que sigo adiante, renovando o compromisso com o serviço público, com a ética e com a construção de um Estado cada vez melhor.
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