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O cavalinho Xomano e o cuiabanês

Por Suelme Fernandes

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O mascote oficial do time Cuiabá E. C. é um peixe dourado apelidado de douradão, no seu emblema tem o marco do centro geodésico da América do Sul, que fica em frente a Câmara Municipal, na praça Pascoal Moreira Cabral (fundador de Cuiabá) e a cor da camisa do time é verde, como a cor da bandeira de Cuiabá.

Só faltava falar. Pra supresa dos cuiabanos o cavalinho do Cuiabá E.C. que aparece aos domingos no programa Fantástico tinha sotaque de caipira mineiro. Isso gerou uma grande revolta na cidade.

A resposta nas redes sociais foi imediata. Tantos ataques que o próprio Tadeu Schimdt teve que corrigir a falha grosseira da produção através de um vídeo na internet que viralizou. Nesse domingo passado, enfim o boneco batizado de Xomano apareceu falando com sotaque cuiabano. Cuiabanos e não cuiabanos vibraram com essa aparição.

A antropologia considera a língua de um povo, uma das suas principais marcas identitárias. Lenine Póvoas chamou essa identidade local, incluindo a língua de cuiabanidade.

Com a onda migratória dos anos 70/80 e do uso em escala de aparelhos de TVs e das novelas, o falar cuiabano passou por um de preconceito linguístico enorme. Inclusive nas escolas. Logo criou-se a oposição: nativos e estrangeiros, cuiabanos de pé ratchado e os pau rodados.

Afora, as controvérsias e críticas ao deboche exagerado no falar cuiabano, Liu Arruda nos anos 80 e sua icônica Comadre Nhara e Djuca representou uma resistência cultural da língua local aos chegantes através de seus causos e piadas de sátira a cariocas e gaúchos. Manifestações de personagens e humor que continuam nos dias atuais, com Comadre Pitú, Nico&Lau, Xô Dito, Totó Bodega e Almerinda. Sem contar o movimento musical do rasqueado que também participou dessa afirmação cultural e que renderia outro texto.

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Mas esse preconceito era coisa antiga.
Em 1921, o primeiro pesquisador que tentou entender esse dialeto foi o professor de Português da Escola Sen. Azeredo, Flanklin Cassiano da Silva que publicou o livro “Subsídios para o estudo da Dialectologia de Mato Grosso”.

O autor buscou as raizes linguísticas desse sotaque em determinadas regiões de Portugal como Minho e Tras os Montes. Sua iniciativa já era uma busca de valorização e aceitação desse dialeto e de luta contra o preconceito da época.

A partir daí vieram outros divulgadores desse linguajar, nos anos 70/80. Em 1978, Maria Francelina Ibrahim Drummond publicou o livro “Do Falar Cuiabano”. Nos anos 80/90 Moisés Martins, Wilian Gomes e Antônio Arruda publicaram dicionários com verbetes e expressões nativas.
Na mesma linha, em 2008, Pedro Rocha Jucá com o livro “Da Linguagem Cuiabana”.

Em comum, todos defenderam que o sotaque cuiabano é herança dos portugueses e/ou dos bandeirantes.

Em 2005 a UFMT, Instituto de Linguagem publicou “Vozes Cuiabanas: estudos linguísticos em Mato Grosso” organizado por Manoel Mourivaldo S. Almeida e Maria Inês Plagliarini Cox. Em 2014, a professora Cristina dos Santos lançou “Do Falar Cuiabano”.

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Nessas análises acadêmicas sobre esse “djeito de falar” definiram fonética e morfologicamente essa variação linguística, e não a língua em si, como sendo herança cultural dos povos indígenas, em especial dos Bororos e também dos africanos escravizados. Esses grupos representaram 65% da população no período colonial da Vila Real de Cuiabá .

Para o linguista Marcos Bagno que publicou vários livros sobre o tema, não existe português certo ou errado, porque a língua se renova exatamente pelas suas variações.

Os índios Bakairi na década de 1960/70 foram proibidos pela FUNAI de falar sua língua materna na aldeia. Passaram então a falar sua língua escondidos na mata. Por isso, atualmente falam sua língua nativa fluentemente.

Por analogia, diante da polêmica dos cavalinhos e da ida do Cuiabá E.C. para série A, percebi que o falar cuiabano que parecia morto,está vivíssimo.

A vitória do time que traz toda a simbologia da cidade reavivou o sentimento e a estima de cuiabanidade. E o antigo hábito de falar cuiabanês que sobrevivia restrito ao ambiente doméstico “no casa do mamãe ou do Titia” está voltando para as ruas, impulsionado pelas redes sociais com personagens como Xomano que mora ali, Xomano do Saber, Kbça Pensante entre outros.

O falar cuiabano não tinha morrido, ele só estava escondido! Língua não morre, ela evolui, quem morre são os falantes!

Suelme Fernandes, Historiador e Analista Político siga no Instagram @suelmefernandes.

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Projeto narra “Memórias de um Restauro” de casa no Centro Histórico de Cuiabá

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A ação foi aprovada em edital da Lei Federal Aldir Blanc em Cuiabá, executada pela Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, com apoio do Conselho Municipal de Política Cultural

NAIARA LEONOR

Uma sala, um quarto, uma cozinha, um banheiro e um ateliê. Que histórias esses espaços podem nos contar? Memórias tem endereço: Casa 603, Rua do Meio, Centro Histórico de Cuiabá. Nesta sexta-feira (16), a partir das 16h, será o momento de ouvi-las. O projeto “Memórias de um Restauro” apresenta o processo de recuperação desse espaço que sobreviveu ao tempo, como forma de contribuir para a educação patrimonial e preservação do patrimônio histórico cultural na capital de Mato Grosso. Em razão do cumprimento das medidas sanitárias durante a pandemia da COVID-19, o encontro será virtual, por meio do perfil do projeto no youtube e facebook. A ação foi aprovada em edital da Lei Federal Aldir Blanc em Cuiabá, executada pela Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, com apoio do Conselho Municipal de Política Cultural.

Foi em 2019 que a arquiteta, historiadora e professora universitária aposentada, Ludmila de Lima Brandão, adquiriu o imóvel de número 603 na antiga Rua do Meio, no Centro Histórico de Cuiabá.

“Encaminhei o projeto de ‘requalificação’ da casa, provavelmente construída em finais do século XVIII, com cerca de 80m2, ao Escritório do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em Cuiabá, por reconhecer a necessidade do Centro Histórico de Cuiabá precisar de um estímulo aos projetos de recuperação/restauro/adaptações de modo a torná-lo um lugar atraente para usos compatíveis com sua condição de patrimônio arquitetônico”, explica Ludmila Brandão.

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A proprietária, que também é proponente do projeto contemplado em edital executado pelo município de Cuiabá, conta que à medida que a equipe contratada para a obra trabalhava no restauro da casa, ela foi reconhecendo a importância histórico-arquitetônica do espaço e identificando a necessidade de registrar todo o processo.

“Ter sido contemplada com recursos deste Edital é a oportunidade de efetivar essa Memória e compartilhar os conhecimentos produzidos ao longo da requalificação, que acreditamos poderá não apenas beneficiar profissionais e estudantes que desejam atuar com patrimônio histórico, mas, principalmente, sensibilizar outros proprietários/moradores ou potenciais proprietários para iniciativas semelhantes e até mais audaciosas em termos de investimento”, destaca.

Cuiabá é uma das 68 cidades brasileiras que contam com conjunto urbano tombado, segundo dados de 2017, do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Cultural (IPHAN). Apesar disso, ainda se nota a dificuldade de gerir esse patrimônio de valor inestimável, já que são poucos os proprietários que dispõe de recursos financeiros para restauro e manutenção das estruturas, que devem seguir os critérios estabelecidos pelo órgão responsável pelo tombamento e exigem equipe técnica especializada na execução da obra.

Considerando esse cenário e o contexto local, o projeto tem a finalidade de produzir uma Memória da obra, buscando o compartilhamento dos conhecimentos produzidos nessa experiência. Para a proponente, os problemas encontrados, bem como as soluções, podem ser do interesse de profissionais e estudantes que atuam/pretendem atuar com patrimônio arquitetônico, dos proprietários de imóveis similares e dos demais cidadãos.

A restauração da casa, que ocupa todo o lote (provavelmente desmembrado) e é constituído de sala, quarto, cozinha, banheiro e espaço anexado de ateliê, foi iniciada em março de 2020, sob a coordenação do arquiteto André Campos, e concluída no início de 2021.

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Ao longo do processo de restauração, o arquiteto André Campos, assim como o fotógrafo Fred Gustavos, foram registrando imagens que tornam possível hoje refazer o percurso do restauro. Dessa maneira, os registros fotográficos da requalificação do imóvel e textos do Memorial Descritivo farão parte de um espaço expográfico para exibição dessa memória nos diferentes ambientes da casa. Além da exposição, o projeto também pretende abrir a casa para visitações guiadas presenciais e virtuais, com mediação da proprietária e/ou arquiteto responsável.

Por fim, Ludmila Brandão ressalta que a casa abrigará a Sede e Residência Artística da Paratudo Artes – um coletivo interdisciplinar composto por ela, pelo fotógrafo e artista visual Fred Gustavos, por Suzana Guimarães (Doutora em História), Quise Gonçalves (Doutora em Estudos de Cultura Contemporânea) e Giordanna Santos (Doutora em Cultura e Sociedade).

Contatos para imprensa

Giordanna Santos – Assessoria de Imprensa

giosants@gmail.com

Quise Gonçalves e Ludmila Brandão – Produção do Projeto

paratudoartes@gmail.com

 

 

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