Tecnologia
Impactos da poluição plástica no Brasil é tema de debate entre academia, governo e sociedade
Os desafios da poluição por plásticos e os caminhos para sua superação no Brasil reuniram representantes da ciência, do governo e da sociedade civil nesta terça-feira (17/06), no workshop “Visões e perspectivas sobre a poluição por plástico no Brasil”. Promovido pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade de Surrey, do Reino Unido, com apoio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o evento integra o projeto “Promovendo justiça climática para grupos marginalizados na implementação do Tratado Global de poluição por plásticos da ONU no Brasil”.
A secretária de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Andrea Latgé foi uma das convidadas do evento. Em sua fala, a secretária ressaltou a urgência do tema e a importância da articulação entre ciência, políticas públicas e sociedade. “É fundamental conectar conhecimento científico e tomada de decisão para que possamos enfrentar de forma justa e eficaz o problema da poluição por plásticos”, afirmou.
“O oceano aproxima as pessoas. Ele é um só, é global. E os problemas que ele enfrenta também são nossos. A questão da poluição, especialmente a poluição plástica, é urgente. Não é preciso ser da academia ou do governo para compreender a gravidade do que estamos enfrentando”, completou a secretária.
A atividade teve como objetivo captar a diversidade de perspectivas sobre como o plástico deve ser gerido no futuro, com foco na identificação de prioridades, desafios, oportunidades e barreiras para a aplicação do tratado no Brasil. Participaram representantes de diferentes setores como ANVISA, Ministério da Saúde, IBAMA, BNDES, universidades, comunidades indígenas, pesqueiras e marisqueiras, associações de catadores e organizações da sociedade civil.
Cultura Oceânica
Andrea lembrou que o plástico tem sido um dos protagonistas desses impactos ambientais e destacou o trabalho que vem sendo desenvolvido no MCTI para enfrentar o problema com base em evidências científicas.
“Temos incentivado pesquisas e editais que tratam do lixo marinho com base em dados e evidências. Mas ainda temos pouquíssimos dados sobre lixo no mar no Brasil. Precisamos avançar muito nesse levantamento, inclusive em escala global. Conhecer melhor a nossa realidade é essencial para termos políticas públicas eficazes e embasadas na ciência”, explicou.
Ela também destacou a atuação do MCTI na área da Cultura Oceânica e o programa Escolas Azuis, desenvolvido em parceria com o Ministério da Educação. “A ideia é levar para o currículo escolar temas relacionados aos oceanos, à preservação ambiental e, principalmente, à poluição por plástico. Entendemos que as crianças têm um papel fundamental na formação de uma nova cultura ambiental”.
Cooperação Internacional
A professora Rosalind Malcolm, da Universidade de Surrey, ressaltou que o desafio da poluição plástica exige cooperação internacional. “A velocidade com que o plástico tomou conta do nosso cotidiano foi impressionante e, com ele, veio o grave problema da poluição. Este é, sem dúvida, um dos grandes desafios globais da atualidade. E é importante destacar: nenhum país conseguirá resolver isso sozinho. Precisamos de cooperação internacional, e essa é justamente a proposta deste encontro”, afirmou.
Rosalind destacou ainda a parceria entre Brasil e Reino Unido no enfrentamento do problema. “Há cerca de cinco anos, iniciei uma colaboração com a professora Samara, da Universidade de São Paulo. Já finalizamos um primeiro projeto em conjunto, e agora estamos desenvolvendo uma segunda iniciativa para ampliar ainda mais esse diálogo e a troca de conhecimento. É fundamental que a gente não apenas reconheça o problema, mas também amplie as vozes que podem contribuir para enfrentá-lo. Precisamos ouvir os diversos atores aqui presentes e nos perguntar: como podemos construir uma legislação eficaz e que realmente funcione na prática?”, completou.
Severino Lima, da Aliança Internacional de Catadores e Catadoras, reforçou a importância do reconhecimento e da escuta dos catadores nas negociações internacionais. “A única voz legítima para falar dos catadores no tratado é o governo brasileiro, a partir do que a gente construiu junto. Hoje, essa aliança internacional reconhece isso. Porque catador tem voz, tem proposta e tem lugar nesse debate global”, afirmou Severino.
Ele também compartilhou a trajetória de incidência política dos catadores no Brasil e no exterior. “Antigamente, era tudo muito solto. Tinham muitas propostas que nos colocavam como coadjuvantes, como se fôssemos só a mão de obra da coleta. Mas fomos virando esse jogo, inclusive nos espaços internacionais. Fomos identificando quem são os verdadeiros trabalhadores, os que vivem a realidade da reciclagem, e encontramos parceiros, inclusive entre os povos indígenas. Hoje temos uma aliança forte com indígenas, inclusive norte-americanos, e outros trabalhadores que estão na mesma luta”, relatou.
Tecnologia
Projeto Entre Ciências seleciona seis propostas sobre sociobiodiversidade
Como cuidar melhor da floresta, da terra e da biodiversidade? Parte dessa resposta está no diálogo entre diferentes formas de conhecimento. Com o objetivo de fortalecer a participação de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares na produção de conhecimento sobre a sociobiodiversidade, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) vai selecionar seis iniciativas para o projeto Entre Ciências: Territórios de Saber em Diálogo.
Foram avaliadas 60 propostas de arranjos de pesquisa colaborativa, envolvendo comunidades e academia, vindas de diferentes regiões da Amazônia e do Cerrado. Os trabalhos foram selecionados por uma comissão formada por especialistas e representantes das próprias comunidades, levando em conta não só critérios técnicos, mas também a diversidade dos territórios e protagonismo de mulheres, jovens e anciãos.
Projetos selecionados
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Associação dos Seringueiros do Seringal Cazumbá. Parceiro acadêmico: Instituto Federal do Acre (Ifac) — Campus Rio Branco;
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Associação Quilombo Kalunga. Parceiro acadêmico: Universidade de Brasília (UnB) – Programa de Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais (Mespt) e Programa da Licenciatura em Educação do Campo (Ledoc);
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Organização Baniwa e Koripako — Nadzoeri. Parceiros acadêmicos: UnB, Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade de São Paulo (USP);
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Associação de Mulheres Indígenas em Mutirão (Amim). Parceiro acadêmico: Instituto Federal do Amapá;
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Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica. Parceiro acadêmico: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) — Campus Almenara;
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Coletivo Mulheres Retireiras do Araguaia. Parceiro acadêmico: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), vinculado ao MCTI, e Instituto Juruá.
Com os novos arranjos selecionados, o projeto passa a apoiar oito experiências em diferentes territórios, ampliando uma rede que conecta ciência dos povos e comunidades com a ciência acadêmica, cultura e meio ambiente.
Para a secretária de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI, Andrea Latgé, a iniciativa reforça a importância de integrar diferentes formas de conhecimento na produção científica. “O Entre Ciências mostra que o conhecimento também nasce nos territórios. Ao valorizar saberes de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, fortalecemos uma ciência mais diversa e conectada aos desafios do País”, destaca.
O Entre Ciências aposta em uma ideia simples e poderosa: quem vive nos territórios também produz conhecimento. O projeto fortalece o papel de povos indígenas e comunidades tradicionais na pesquisa sobre biodiversidade, em temas prioritários para o próprio território, incentivando a parceria com atores acadêmicos comprometidos e com respeito às diferentes formas de conhecimento.
Além do apoio aos projetos, a iniciativa oferece formação, bolsas para pesquisadores locais das comunidades, intercâmbios e suporte para a gestão de dados e informações produzidas pelas próprias comunidades.
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