OPINIÃO

Promover ou não promover, eis a questão

Publicados

em

 

*Lorena Lacerda

 

Recentemente realizei uma sessão de mentoria com um cliente cuja empresa está em franco processo de crescimento. E, em contextos assim, redesenhar a estrutura organizacional é quase sempre necessário, considerando o incremento no tamanho da operação e nas perspectivas que se vislumbram pro futuro.

 

Naquela sessão meu cliente me trouxe uma dúvida: promovo ou não promovo um profissional técnico pra uma vaga de Coordenação? Busco no mercado? Quem escolho da equipe? Aceito a escolha do gerente que irá liderar diretamente esta nova coordenação? Que caminho seguir com o menor risco possível?

 

Diante de todas estas dúvidas, eu apresentei a ele o que considero serem os 3 princípios para uma decisão de promoção: o princípio da autonomia, o princípio da oportunidade e o princípio da competência. Tratarei aqui de cada um deles.

 

Princípio da autonomia: se você é gestor e tem abaixo de você um outro gestor (em cargo de gerência, coordenação ou supervisão), precisa dar autonomia para que este liderado tome a decisão sobre quem ele irá contratar. Primeiramente porque ele é quem irá liderar a pessoa no dia a dia, portanto terá as condições de treinar e avaliar a adaptação do profissional ao cargo, principalmente durante o período de experiência.

 

Depois, porque quando uma pessoa tem a responsabilidade por decidir por uma contratação, ela se dedica mais para que a avaliação seja acertada e o processo de integração seja eficaz, aumentando as chances de dar certo.

 

Por fim, ao saber que tem autonomia para decidir se contrata, promove ou demite, o líder se responsabiliza por ser efetivamente um líder, dedicando seu tempo para orientar, acompanhar, treinar, incentivar, dar feedback, dentre outras funções essenciais da liderança. Portanto, deixe seu liderado decidir sobre a equipe dele! Compartilhe sua visão, sua percepção e preocupações, mas deixe que ele decida ao final.

Leia Também:  BR-163, a teia de Penélope

 

Princípio da oportunidade: as pessoas se motivam a trabalhar em uma empresa por três razões principais – pela remuneração/benefícios, pelos aprendizados que poderá obter e pela oportunidade de crescimento na carreira. Então, sempre que houver uma nova vaga na empresa, olhe primeiramente para a equipe atual. Mesmo que haja dúvidas sobre dar a oportunidade pra alguém interno, abra o processo seletivo e incentive a equipe a se candidatar à vaga.

 

Se a empresa abre uma vaga sem dar oportunidade pra equipe que está atuando participar do processo seletivo, ela declara que não acredita na equipe atual, mesmo que não seja essa a questão. Os profissionais que chegaram a cargos mais altos, vindos da base da pirâmide, terão sempre uma admiração maior pela empresa, porque sabem que acreditaram nele, no potencial dele pra entregar mais e melhor. Desta forma vai se consolidando uma cultura onde há reconhecimento e maior engajamento.

 

Princípio da competência: temos que contratar ou promover alguém pra um cargo considerando as competências necessárias – conhecimentos, habilidades e atitudes. Queremos dar oportunidades para nossas equipes, mas temos que ser responsáveis em avaliar o grau de prontidão do profissional para a nova vaga. O problema aqui está no perfeccionismo que faz com que muitos gestores nunca acreditem que suas equipes estão prontas para novas oportunidades.

 

E aqui vai uma regra que aprendi há muitos anos, em um dos programas internacionais de desenvolvimento de líderes que participei: não espere a pessoa estar mais que 70% preparada para promover. Porque dificilmente alguém estará! Principalmente porque a gente aprende, enquanto adulto, na prática, fazendo. Então só saberemos com a prática mesmo se a pessoa vai sair dos 70% e chegar nos 90% ou até 100% de adequação ao novo cargo.

 

Porém atenção: avalie sempre se o profissional dispõe do perfil comportamental para aquela nova posição. Aplique alguma ferramenta de avaliação através do RH da empresa ou de consultoria externa. Mas, não deixe de avaliar o aspecto atitudinal da pessoa pro cargo. Afinal, todos sabemos da máxima “contratamos pelo currículo e demitimos pelo comportamento”.

Leia Também:  FETHAB - Discussão sobre a inconstitucionalidade e ilegalidade do FETHAB no STF

 

Mesmo em se tratando de alguém que está na equipe já há algum tempo e que portanto acreditamos já conhecer, ao assumir um novo cargo, principalmente se for alguém que nunca liderou, novos comportamentos serão demandados. Portanto, nada de precipitação! Com calma e ponderação, checando-se todos os aspectos relativos ao cargo, ou seja: as competências técnicas e comportamentais, as chances de êxito serão bem maiores.

 

Ao seguir os três princípios, você terá como resultado líderes mais autônomos e responsáveis por suas próprias equipes; equipes motivadas pelas oportunidades de crescimento na empresa e promoções mais acertadas por compatibilidade das competências exigidas com o perfil do profissional promovido. Você não irá eliminar os riscos de errar na decisão, mas reduzirá bastante. E, com a prática, serão cada vez melhores em tomar este tipo de decisão.

 

No caso do meu cliente, ele decidiu avaliar mais profundamente os candidatos internos à nova posição, até para que aqueles não escolhidos ao final sentissem que também tiveram a oportunidade de serem considerados, recebendo inclusive um Feedback do que faltou para não terem sido escolhidos e como podem se desenvolver para uma futura nova oportunidade.

 

Desta forma a cultura da organização se consolida com maturidade e bom senso para a gestão das pessoas. Seu nível de retenção de pessoas irá te mostrar o quanto valeu a pena investir nestes princípios.

 

*Lorena Lacerda é palestrante, coach de executivos e times, mentora de liderança e gestão, CEO do Grupo Valure, associada à Fundação Dom Cabral em MT

COMENTE ABAIXO:
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

OPINIÃO

O QUE FOI O SALADEIRO?

Publicados

em

 

Instalado em 12 de junho de 1922, matadouro público, para abastecimento de carne da população cuiabana, ainda estava nas proximidades da “Boca do Valo”, em condições precárias de instalação e de higiene.
Daí as providências do Intendente Municipal (Designação dada, até pouco depois de 1920, aos chefes do poder executivo municipal, hoje chamados prefeitos), celebrando contrato com a firma Curvo & Irmãos, após a devida autorização da Câmara, removendo o matadouro para a margem direita do rio Cuiabá, no então terceiro distrito (Várzea Grande).
A partir de 1922, entrara a firma Curvo & Irmãos em ação, construindo o saladeiro de material, coberto de zinco, com regular área de boa altura.
Feitos os currais, cercados, instalada a aparelhagem geral, iniciou-se o abate das reses, passando a ser feita a remessa dos quartos de bois para os açougues de Cuiabá, a princípio em pequena lancha, até o porto e, mais tarde em automóvel, diretamente ao açougue.
A firma Curvo & Irmãos compunha-se dos sócios João Barbuíno Curvo (Sinjão Curvo), depois virou um abastado atacadista da praça comercial de Cuiabá, na qual, com seus filhos, organizou a firma J. B. Curvo, todos integrados na lata sociedade da Capital mato-grossense.
Os outros dois sócios desse empreendimento foram Eugênio Agostinho Curvo e Plácido Flaviano Curvo que foram figuras de projeção dos meios comerciais e sociais de Cuiabá, destacando-se entre os filhos o jovem e educadíssimo, médico Dr. José Curvo.
Quando, em 1928, Sinjão Curvo, um dos dirigentes da firma, desligou-se dela pacificamente, ocupou seu lugar o irmão mais novo, Joaquim Agostinho Curvo, que logo passou para a direção do matadouro. Infelizmente foi o primeiro a desaparecer, na década de 1950, colhido pela fatalidade.
Inaugurado o saladeiro em 1922, não tardou a aparecer a concorrência clandestina de antigos açougueiros, que não contando coma legalização para fornecimento de carne aos açougues de Cuiabá e faltando-lhes, dar condições de higiene nos lugares de abate de reses, abasteciam, assim mesmo os próprios açougues com os quartos de bois, que conduziam em carroças, de Várzea Grande para a Capital.
Durante dois anos, enquanto permaneceu o desentendimento, o saladeiro sujeitou-se à charqueada, distribuindo carne em Cuiabá apenas aos seus açougues, a princípio em número de dois e, mais tarde, de quatro, obrigados que foram à montagem de mais estabelecimentos de distribuição do produto.
Em 1924, os advogados João Vilas Boas e Mário Mota defenderam a firma na justiça, entrando os açougueiros de Várzea Grande num acordo com os irmãos Curvo.
Nessa época já era açougueiro o senhor Generoso Malheiros, único a respeitar os direitos da firma, pois eram velhos amigos dos Curvo.
Recomeça, pois em 1924, a distribuição da carne verde aos açougues cuiabanos, sendo, talvez por isso que o serviço de estatística de Várzea Grande traga registrada a data de inauguração do Saladeiro a 15 de maio de 1924.
Decorreram vinte anos com altos e baixos, ataques de jornais à qualidade e ao atraso na entrega da carne aos açougues, concorrendo com outros abatedores de Várzea Grande e às variações de preço no comércio de gado.
A empresa lutou com dificuldades algumas vezes, fases essas amenizadas com os lucros resultantes da criação de porco e galináceos em regular quantidade, alimentados com os detritos das reses abatidas diariamente.
Pacatos e trabalhadores, os irmãos Curvo passaram a negociar até mesmo os chifres e os cascos das reses, tal a procura vinda mais tarde, e assim lograram vencer metade do prazo do contrato, em modestas condições de prosperidade.
Passados vinte anos, a firma conseguiu a renovação de contrato, mas, poucos anos depois, falecendo o sócio Joaquim Agostinho Curvo, o que conservava relativa mocidade e, portanto quem andava à frente dos negócios do abate das reses, eis que outros dois irmãos, já encanecidos (velhos) naquela luta e que eram mais dos escritórios, resolveram transferir os direitos da firma a Generoso Malheiros e Filho.
Com a inauguração da Sadia em 1977, quando o Saladeiro já não mais existia, sendo demolidos os paredões restantes das instalações que os irmãos Curvos construíram, apagou-se na memória de alguns, na grande Cuiabá, a lembrança dos serviços prestados pelo antigo matadouro, durante cerca de quarenta e cinco anos.
E nem se pode estabelecer confronto entre o moderno, para uma população dez vezes superior nos nossos dias, e o arcaico, que resolvia os problemas de 40 a 50 mil habitantes da Capital mato-grossense do passado.
Cada povo tem a sua época e atual e de renovação, mas para muitos cuiabanos dos velhos tempo ficou o respeito que se deve aos irmãos Curvos e recordações do velho Saladeiro, que eles com sacrifício construíram.

Leia Também:  Apropriação indébita de impostos

LOCALIZAÇÃO DO ANTIGO SALADEIRO
Em 1911, Várzea Grande passou a ser 3º Distrito de Cuiabá e a chácara do Isolamento como era chamado o local lhe pertencia por estar na margem direita do rio. Quatro anos depois, a 17 de novembro de 1915, essa área era reincorporada ao patrimônio do Estado, pelo decreto nº 413, face a dissolução da Sociedade Mato-grossense de Agricultura, com todas as benfeitorias que diga-se de passagem eram pouquíssimas.
Em 1921, pela resolução nº 854 de 7 de novembro, o governo cedeu os direitos de posse desse terreno à municipalidade de Cuiabá e pelo decreto da Intendência da Capital, de nº 592 de 12 de junho de 1922, era ali instalado o Matadouro Modelo dos Irmãos Curvos, que permaneceu no ramo até a década de 50, transferindo o a Firma Malheiros e Filho. Pela Lei já do Município de Várzea Grande, de nº 354 de 19/02/1968, na gestão da Prefeita Sarita Baracat, a referida área foi doada ao Grupo Frivar S/A, com o compromisso de instalar nela um Frigorífico com abate de bovinos e suínos.
Findo o prazo e não tendo sido possível cumprir o ajuste, entrou a Frivar em espécie de convênio com a Sadia Oeste S/A e a partir de 1972, por intermédio do empresário Ingo Klein, iniciaram-se as negociações com o município e contou com a colaboração imediata do prefeito que assumia em 1º de fevereiro de 1973, o jovem Júlio José de Campos. Com a significativa colaboração de Júlio Campos os trabalhos de instalações da Empresa se aceleraram e em 25 de novembro de 1977 foi inaugurado no bairro hoje chamado de Alameda Júlio Muller, que já teve o nome de Estrada do Saladeiro porém, não mais na margem do rio Cuiabá e sim em uma área alguns metros acima, que recebeu um enorme aterro e sobre este erigiram-se grandes depósitos, escritórios e demais instalações.
O casarão do antigo Saladeiro sito na barranca do rio, foi demolido e nada ficou do antigo Porto de Isolamento, senão as lembranças dos sombrios tempos das revoluções em Mato Grosso, ao romper do século.

Leia Também:  BR-163, a teia de Penélope

Wilson Pires de Andrade é jornalista em Mato Grosso

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

CUIABÁ

VÁRZEA GRANDE

POLÍTICA

POLICIAL

MAIS LIDAS DA SEMANA