OPINIÃO

Indústria em declínio

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Nos últimos 4 anos, 17 indústrias fecharam as portas a cada dia no Brasil. Ao todo, no período, foram 25.376 unidades industriais fechadas, como aponta levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Já o IBGE mostrou que a produção industrial brasileira caiu 1,1% em 2019 em comparação com o ano anterior. Ainda, segundo o próprio IBGE, nos últimos seis anos indústria nacional amargou uma perda de 14,8%.
Um exemplo dessa redução é a indústria calçadista de Franca (SP) – um dos principais polos fabricantes de sapatos do país. Esta semana foi divulgado que o setor encerrou 2019 com uma baixa histórica nos números, os piores em duas décadas. Em 2012, foram 39,5 milhões de pares de sapatos produzidos, já em 2019 esse número chegou a apenas 24 milhões de pares. Em 2019, a Ford fechou as portas de sua fábrica mais antiga em São Bernardo do Campo (SP). Se a situação está ruim para as grandes indústrias, imagine para os médios e pequenos industriários.
Especialistas apontam que a situação da indústria brasileira nunca foi tão grave. Não é alarmismo, os números mostram: a indústria brasileira está em declínio. O país está se desindustrializando. E um país sem indústria é um país pobre. É na indústria que estão mais empregos, melhor qualificação, melhores salários.
Os fatores para a crise na indústria brasileira precisam ser analisados detalhadamente, não é apenas resultado da crise econômica que atingiu o Brasil a partir de 2013. São muitos os problemas estruturais antigos que prejudicam a nossa competitividade. Um deles é a complexidade do sistema tributário brasileiro. Muitos impostos e outras exigências burocráticas fazem com que o empresário acabe desistindo de produzir aqui. Problemas graves de logística também tornam a produção nacional cara e, muitas vezes, inviável.
O Brasil parece estar ficando cada vez mais distante da conjuntura internacional. Enquanto economias desenvolvidas estão retomando as políticas industriais de grande porte, o Brasil não tem um plano estratégico de industrialização. E, mais grave, o país não tem sequer empresas preparadas nem escolas que preparem pessoas para a assimilação do próximo paradigma tecnológico: a indústria 4.0.
Alguns setores industrias estão praticamente desaparecendo com o advento de produtos importados a custos extremamente baixos, como aqueles produzidos na China. Como exemplo, podemos citar nossa indústria têxtil. Não digo que devemos ter mecanismos de proteção à indústria que barrem importações e tornem nosso mercado fechado. Isto é impensável na economia global que vivemos, mas um programa de industrialização é necessário e urgente.
O presidente Donald Trump é duramente criticado por outros governantes pela guerra comercial que trava com alguns países, principalmente a China (novamente a China), mas o que ele está fazendo, algumas vezes de forma truculenta, é proteger a produção americana como um todo. Os próprios EUA viram sua indústria automotiva quase desaparecer devido à concorrência estrangeira.
Enquanto isso, desmontamos nossos mecanismos de fomento. Se não houver um choque de estímulos, o declínio continuará. A pergunta é, até que ponto? Seremos um país apenas produtor de matérias primas? Vamos nos conformar em exportar soja, algodão e outras commodities e importar alimentos industrializados, ração, tecidos, roupas, carros? Nossos trabalhadores ficarão presos a empregos precários, de baixa qualidade e renda?
Não basta apenas os governos (federal e estaduais) confiarem no crescimento econômico que se inicia e, assim, nossa indústria passará a se recuperar. É preciso organizar um projeto de industrialização para as próximas décadas.  Isso passa pela modernização tecnológica das fábricas, capacitação profissional, um novo e moderno sistema tributário, incluindo a revisão das leis trabalhistas e linhas de créditos com juros baixos, entre outros.
*Margareth Buzetti é presidente da AEDIC e da Associação Brasileira do Segmento de Reformas de Pneus

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OPINIÃO

Falta de política ambiental piora a crise econômica

Por Alberto Scaloppe

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As consequências ambientais e econômicas, de responsabilidade inconteste do governo federal, estão sobrecarregando a já sobrevivente economia brasileira. Estamos perdendo bilhões de reais em investimentos por desconsiderar a necessidade real da atividade econômica sustentável. A falta de uma política ambiental do atual governo abriu um fosso do qual está resistindo em sair, mesmo diante de todas as manifestações, em especial do setor privado. Sim, do dono do capital.

A política ideológica ambientalista retrógada iniciou com a desistência em sediar a conferência climática da ONU em 2019 e com a destituição de 21 superintendentes do Ibama, deixando alguns estados sem gestão por mais de um ano. Mas não parou por aí: a retirada de informações e mapas de áreas prioritárias para conservação da biodiversidade da internet, indo de encontro com a transparência dos atos públicos, além da inativação do Fundo Amazônia que reunia mais de R$ 1,5 bilhão em investimentos internacionais na conservação ambiental liderado pela Alemanha e Noruega.

Reflexos já são sentidos pelo setor madeireiro e mineral, quando tiveram suspensos o Sistema Nacional de Controle de Origem Florestal e a operação de todos os postos de compra de ouro, vinculados a Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, causando prejuízos em pelo menos 26 municípios de cinco estados.

Recentemente, ex-titulares do Ministério da Fazenda e da Presidência do Banco Central se uniram para uma convergência econômica com foco na defesa do meio ambiente. Neste mesmo período, 38 grandes corporações e quatro entidades de classe empresariais manifestaram abertamente as consequências econômicas negativas da crise ambiental. Outra preocupação partiu de instituições financeiras internacionais que gerenciam mais de U$ 4,5 trilhões de dólares em ativos para investimentos, sobre a percepção negativa do mercado internacional e possíveis perdas de investimentos no país.

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A conta fica ainda pior: o Brasil corre o risco de perder mais de R$ 87 bilhões em investimento para desenvolvimentos sustentáveis que podem ser alavancados até 2035 em decorrência do acordo entre Mercosul e União Europeia. Isso porque o governo federal rompeu com as diretrizes ambientais e pactos internacionais sobre meio ambiente, comprometendo as relações comerciais entre os países signatários para o aumento de investimentos sustentáveis.

O acordo entre Mercosul e União Europeia, recém assinado, ainda precisa ser ratificado pelo bloco de países europeus e cumprir contrapartidas previstas no acordo de Paris, que consigna ao Brasil medidas e resultados para reduzir o desmatamento ilegal a zero até 2035, e restaurar ou reflorestar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. Ocorre que o desmatamento ilegal, em junho de 2020 na Amazônia Legal, cresceu pelo 14º mês consecutivo. E estamos apenas no 17º mês da atual política ambiental.

O Brasil tem assumida responsabilidade internacional para dar proteção ao meio ambiente, amparada pela Constituição, pela Política Nacional sobre Mudança do Clima, o Código Florestal e a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, bem como as demais legislações relacionadas a preservação da biodiversidade.

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A atual contrapartida governamental de criar uma moratória de queimadas por 120 dias, propondo diminuição gradativa, porém sem metas concretas, até 2022, atesta que não há um plano para combater o desmatamento, embora seja considerada “simples” pelo ministro do Meio Ambiente. A fantasiosa narrativa de que há uma conspiração geopolítica contra o desenvolvimento do Brasil é esquizofrenia ideológica que não resolve problemas, nem oferece solução para o desenvolvimento sustentável. E pode ter consequências econômicas negativas para todos nós.

A sociedade está cada vez mais consciente da sua responsabilidade ambiental. O acesso à informação tem exposto cada vez mais os consumidores e as empresas a críticas, emparedando o fator lucro com a sustentabilidade. A conservação ambiental é condicionante universal para manutenção da vida e hoje consumidores consignam suas responsabilidades socioambientais aos produtos que consomem. E, neste caminho de união de interesses, o equilíbrio entre demanda e oferta pode acontecer enquanto preserva-se a vida.

 

*Alberto Scaloppe é advogado do escritório Scaloppe Advogados Associados

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