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OPINIAO - 22/05/2015 - 11:59
 
2º mito: Ideia de Estado laico se alimenta do mito do cristianismo primitivo
 
   
   
 
2º mito: Ideia de Estado laico se alimenta do mito do cristianismo primitivo Versão de que em algum momento Estado e religião andavam separados sustenta discurso tanto de religiosos, quanto de anarquistas e sociólogos Valérya Próspero Houve um tempo em que o cristianismo era pregado corretamente, seguindo perfeitamente os ensinamentos de Jesus Cristo e sem interferências externas que corrompessem os dogmas. Tudo veio por terra quando os líderes da Igreja cristã se juntaram ao Império, começando pelo governo de Constantino. Este foi responsável por tirar o cristianismo da clandestinidade e o tornou uma das religiões do Império Romano, primeiro passo para a “impureza”. Essa é basicamente a reflexão que costuma ser aceita pela sociedade em relação à evolução da religião cristã. Mas vista como um mito pelo pesquisador da UFMT, Leandro Duarte Rust. A versão é defendida tanto por religiões que dizem querer voltar ao cristianismo puro, ao se desligarem de uma igreja já constituída, principalmente protestantes, quanto por ateus ou defensores de um racha entre Estado e religião. Para eles, durante os três primeiros séculos, o cristianismo foi puro e atento às suas origens, com fidelidade à mensagem bíblica e apolítico. Depois, contudo, começou a se aliar a imperadores, perder a pureza primitiva e se corromper, além de negociar as verdades em troca de posições políticas, vantagens e interesses de poder. “Essa interpretação, para mim, é outro mito em torno do Vaticano. O cristianismo já é político antes de ser uma religião libertada”, avalia. Na medida em que o cristianismo vai se difundindo na sociedade, nos primeiros 150 anos, não é mais uma religião de pobres excluídos, já que se difunde na elite e tem contato com famílias senatoriais. “Não dá para dizer que foi a aparição de Constantino ou a aliança com o imperador que influenciou na pureza primitiva do cristianismo”, assegura. Conforme Rust, a ideia de cristianismo primitivo é um mito sobre duas coisas. Primeiro, a idealização e utopia em torno da religião. Segundo, a utopia em torno do espaço público [Estado]. Se a Igreja praticamente não teve um período de pureza, o império também sempre teve influência religiosa “dos deuses” por praticamente todos os reinados. Dessa forma, Constantino, ao colocar o cristianismo entre as religiões permitidas, somente legitimou mais uma “intervenção” divina para dominar não só o interesse público e material. “E usa isso como justificativa para uma dominação ainda mais implacável, porque o imperador convence os homens de que não está mais administrando apenas a vida material, ele está salvando os espíritos também. O imperador passa a ser o salvador de alma”. Mesmo sendo um mito, assim como os demais, o cristianismo puro continua sendo difundido até os dias de hoje. A pesquisa de Rust mostra que a defesa dessa tese é uma necessidade tanto de agentes da religião, que muitas vezes tentam sentenciar um processo de corrupção da religião, quanto de grupos que condenam a intromissão de religiosos na vida pública. Assim, segundo o docente, esse mito é sustentado tanto por protestantes ou cristãos de uma forma geral, quanto por anarquistas e socialistas no começo do século XX. “Porque os anarquistas vão dizer ‘Oh, o maior erro do ocidente foi deixar o cristianismo virar a religião do Estado. Tem que separar’. É como se eles dissessem: ‘certo era enquanto existia um cristianismo primitivo, quando a religião era uma coisa e o Estado era outra’”, esclarece. Rust lembra que a ideia de um Estado laico se alimenta muito do mito do cristianismo primitivo. E completa dizendo que antes mesmo do movimento cristão aparecer como religião oficial no Império Romano, o espaço público era uma questão religiosa, mesmo que pagã. Portanto, para ele, se esse mito continua a ser difundido, perpetuado na sociedade, é porque ele apresenta uma versão interessada ou adequada da realidade para algum grupo, que é esse caso, por exemplo. “O que leva um anarquista ou um socialista a defender a ideia de cristianismo primitivo? Porque esse mito atende a um modelo político que ele quer defender. A história do mito pode ser classificada como falsa, mas a importância dela para as pessoas, não. Esse é o argumento fundamental”. O professor ressalta que em nenhum momento da pesquisa descobriu uma fonte histórica inédita, um documento revelador. Trabalhou com acervos que são conhecidos por historiadores, teólogos, provavelmente há 100 anos, e qualquer pessoa pode iniciar essa pesquisa e identificar o mito prontamente. “Mesmo assim, o mito continua ao ponto de aparecer em obras como o Código Da Vinci. Ele é uma versão da realidade e atende a demanda de um contexto específico, atende a interesses específicos, sobretudo o mito político”. E o professor avalia ainda que o rompimento entre Estado e religião, historicamente, é um desafio. Na próxima segunda, dia 18, a revista Fapemat Ciência irá publicar a quinta reportagem da série. Ela irá trazer o terceiro mito, referente à Reforma Gregoriana como símbolo do rompimento com o feudalismo. Conteúdos relacionados 1ª reportagem: Criação de antipapas é forma de punição, mas todos poderiam ter sido papas 2ª reportagem: Episódios do alto clero da igreja católica são apenas mitos, diz pesquisa da UFMT 3ª reportagem: 1º mito: Pedro foi o primeiro papa? http://www.revistafapematciencia.org/noticias/noticia.asp?id=736 http://www.revistafapematciencia.org/
   
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